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Casapueblo

Martha Medeiros

Digamos que você está a fim de viajar para fora do país, mas não tem dinheiro suficiente para ir muito longe. Que você sonha em conhecer a Grécia, mas gostaria de poder ir de carro. Que deseja estar numa cidade com beleza, limpeza e segurança de nível internacional, mas só tem um feriadão pra fazer isso. Olha que sortudos que nós, gaúchos, somos: Punta del Este é aqui do lado.

Punta tem um mistério: os 700 quilômetros que a separam de Porto Alegre parecem mais curtos do que os 450 quilômetros que separam Porto Alegre de Florianópolis. Claro, a BR-101 tem tudo a ver com isso. Ir para Santa Catarina provoca um desgaste emocional que torna a viagem muito mais exaustiva. A ida até Punta só é ligeiramente tensa até Pelotas, que é a parte mais movimentada da viagem.

Depois é sopa no mel. Hoje em dia, falou Punta pensou Conrad, o hotel-cassino que hospeda as celebridades que saem na revista Caras. Com todo o respeito que o Conrad merece, Punta é muito mais simples, e, portanto, muito mais sofisticada, do que essa versão Las Vegas que a impressa às vezes privilegia. Estive lá no feriado de Carnaval e fiz um dos programas mais bacanas da cidade, ao menos para meu critério: fui visitar a Casapueblo, que abriga o museu e o ateliê do artista plástico Carlos Paez Vilaró. Me senti em vários lugares ao mesmo tempo. Por fora, a Casapueblo parece uma construção de Gaudi, o famoso arquiteto catalão. Localizada à beira de um penhasco em frente ao mar, me senti também na ilha grega de Santorini, o branco e o azul parecendo as únicas cores do mundo. Ao contemplar os quadros de Vilaró, me senti na Espanha, tal a influência de Picasso em sua obra. E ao participar do ritual de despedida do sol, voltei pra dentro de mim.

É um ritual que se repete todos os dias do ano, quando o sol se põe. As pessoas se reúnem num dos terraços da Casapueblo e, enquanto tomam alguma coisa (um clericot, uma cerveja, um suco, um cálice de champanhe, o que o bolso permitir), assistem ao sol se pôr enquanto escutam pelo alto-falante um poema declamado na voz do artista, em que ele fala da importância do sol, de como aquele sol está indo embora porque precisa iluminar um novo dia do outro lado do mundo, e de como ele já aqueceu as tardes de pessoas que já não estão entre nós e etc. e tal. Piegas? É. Pôr-do-sol é uma coisa meio cafona, se a gente for pensar bem. Mas vou dizer uma coisa: provoca uma calma rara na gente, uma sensação de que as coisas realmente importantes são duas ou três. E certamente as maquininhas caça-níqueis do Conrad não estão entre elas.


Domingo, 23 de março de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.