Bandeira
Luis Fernando Verissimo
Lembro que o jogador se chamava Bandeira. Tinha sido recém-contratado pelo Internacional, e no seu primeiro jogo pela equipa principal fez um gol sensacional. Daqueles que a TV repete e repete e correm mundo. Driblou toda a defesa adversária, driblou o goleiro e - a frase suprema no vocabulário pronto do torcedor entusiasmado - "entrou com bola e tudo". Hoje não se usa muito entrar com bola e tudo. Mesmo depois de passar pelo goleiro, com nada entre ele e o fundo do gol, o jogador prudente prefere chutar a entrar com bola e tudo. Não só para prevenir contra a chegada de algum desesperado de última hora no seu calcanhar, mas porque entrar com bola e tudo adquiriu um certo ar de acinte, de desrespeito ao adversário. Entrar com bola e tudo equivale a dar as costas para o touro cansado, que é quando o toureiro acrescenta a humilhação a todas as outras agruras do bicho. Mas o Bandeira entrou no gol com a bola e só a chutou quando ele mesmo já se misturava com a rede, lá no fundo. Aliás, acho que foi a última vez que vi alguém entrar com bola e tudo daquele jeito. Consagração.
No resto do jogo, o Bandeira não fez mais nada. No resto da sua passagem pelo Internacional, o Bandeira não fez mais nada. Durante algum tempo, ia gente ao estádio só para ver o Bandeira fazer outro gol como aquele. Era o Bandeira receber a bola e passava um arrepio audível de antecipação pela plateia. É agora! Mas o Bandeira nunca mais fez um gol parecido. O Bandeira nunca mais fez um gol de espécie alguma no Internacional. Quando se convenceram que ele não tinha outra coisa a contribuir para o time, que sua contribuição se resumira naquele gol, o Bandeira foi para a reserva. Ficava no banco. Por algum tempo, toda a vez que o técnico mandava o Bandeira se preparar para substituir alguém, passava o mesmo frisson pela torcida. Talvez agora! Mas depois, nem isso. Depois, nem no banco o Bandeira ficava, e quando ficava era vaiado. Foi vendido.
Não sei que fim levou o Bandeira. Nunca mais ouvi falar nele. Não deve mais estar jogando, esta história é antiga. E também não sei se ele trocaria aquele único gol com bola e tudo por muitos gols normais, que talvez lhe assegurassem uma carreira mais estável, ou se a glória daquele momento compensava tudo, até um fim anônimo. Quem pode dizer?
Se já é difícil entender as pessoas, o que dirá os centroavantes.
Estereotipagem
Jogadores de futebol podem ser vítimas de estereotipagem. Por exemplo, você pode imaginar um jogador de futebol dizendo "estereotipagem"? E, no entanto, porque não?
- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.
- Minha saudação aos aficionados do clube e aos demais desportistas, aqui presentes ou no recesso dos seus lares.
- Como é?
- Aí, galera.
- Quais são as instruções do técnico?
- Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada, com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe agudo com parcimónia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação.
- Ahn?
- É pra dividir no meio e ir pra cima pra pegá eles sem calça.
- Certo. Você quer dizer mais alguma coisa?
- Posso dirigir uma mensagem de carácter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?
- Pode.
- Uma saudação para a minha progenitora.
- Como é?
- Alô, mamãe!
- Estou vendo que você é um, um...
- Um jogador que confunde o entrevistador, pois não corresponde à expectativa de que o atleta seja um ser algo primitivo com dificuldade de expressão e assim sabota a estereotipagem?
- Estereoquê?
- Um chato!
- Isso.
Domingo, 2 de dezembro de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.