Assadores
Luis Fernando Verissimo
Os relatos se contradizem. Uns garantem que eles cruzaram espetos, outros insistem que não chegou a isso. O fato é que os dois tiveram que passar pelo posto médico antes de irem para a delegacia. Porque houve sangue.
Tinham combinado um churrasco na praia para os pais da Vanessa, a Van, conhecerem os pais do Ricardo, o Dão. A Van e o Dão estavam praticamente (essa palavra que não diz nada e serve para tudo) casados, era hora de os pais se conhecerem.
- Meu pai é um grande assador - dissera a Van.
- Meu pai faz um churrasco diferente - dissera o Dão.
Eles deveriam ter previsto o que iria acontecer, mas não previram. Decidiram que estava na hora de as famílias se encontrarem e que um churrasco na casa de praia dos pais da Van seria uma ocasião perfeita para o encontro. Os dois assadores certamente se entenderiam. Quem não se entende, numa churrasqueira?
Começou mal. O pai da Van fez ao pai do Dão a pergunta fundamental, a pergunta que estabelece, de saída, a escola do assador. E dizem que também define índole e caráter.
- Sal grosso ou salmoura?
- Nem sal grosso nem salmoura - respondeu o pai do Dão. - Tenho uma técnica na grelha que dispensa o sal.
O que significa que o pai da Van já começou desestabilizado. Já começou em desvantagem. Mas procurou não demonstrar sua insegurança ao se dirigirem os dois, lado a lado, para a churrasqueira. O pai da Van pensando "Eu deveria ter desconfiado quando ele perguntou se tinha caipirinha de Underberg".
Ficara combinado que o pai do Dão traria a sobremesa, mas ele tomara a liberdade de trazer algumas coisinhas mais, que talvez agradassem. Invenções suas. Por exemplo: um combinado de aipim com queijo, para ser servido, com orégano e geléia de pimenta, como aperitivo, "para nos libertar da ortodoxia do salsichão". E alguns cortes de carne que o pai da Van talvez nem conhecesse, como uma parte, recém-descoberta, do cordeiro que...
Sentados em cadeiras de armar sobre o gramado que separava a casa da churrasqueira, os outros não acompanhavam o que se passava à beira das brasas. A luta de egos e de estilos que, em vez de aproximar os dois pais, os impelia para um desfecho imprevisível, potencialmente trágico. Só se deram conta do que estava acontecendo quando ouviram a voz do pai da Van que gritava "Ah, é? Ah, é?" com raiva, e quando olharam para dentro da churrasqueira... Bom, aí é que vem a divergência. Uns dizem que viram os dois esgrimando com espetos, outros dizem que viram os dois engalfinhados, rolando pelo chão de lajotas. O fato é que, pouco mais de meia hora depois de terem sido apresentados um ao outro, os dois assadores estavam lutando.
Na delegacia, o pai da Van contou que aguentara tudo, o pouco-caso do outro com o sal grosso e o espeto, as frescuras para substituir o bom e honesto salsichão, os cortes de carne exóticos para serem preparados de maneiras exóticas ("Até com kiwi!"), mas não se controlara quando o outro chamara a costela de "lugar-comum" do churrasco, de "banalidade ultrapassada" e, finalmente (aí sim, viera a explosão) de "falta de imaginação".
Ninguém falava assim da costela na frente do pai da Van. Era como se falasse mal de um parente. Desrespeito, não!
― Ah, é? Ah é?
E atacara.
O noivado, ou coisa parecida, da Van e do Dão resistiu à briga, e aos processos mútuos por lesões corporais, dos seus pais. As mães até ficaram amigas, mas nunca conseguiram que os maridos se reaproximassem. O pai do Dão dizendo que com retrógrado maluco não havia papo e o pai da Van dizendo que com quem insultava costela não havia papo. E alguém comentou que era assim em todas as artes: o inevitável conflito entre classicismo e vanguarda.
Domingo, 16 de fevereiro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.