Ariosto!
Luis Fernando Verissimo
Do baú. Ela dera para dizer “Hoje não, bem”. Se não era sono era cansaço, se não era cansaço era dor de cabeça. O Ariosto aguentou até onde deu. E um dia:
- Ariosto! Eu estou no chuveiro!
- Vai ser aqui mesmo.
- Mas...Você está se molhando todo!
- Não interessa.
- Eu estou toda ensaboada!
- Melhor assim.
- Ariosto! Ai! Espera!
Mas Ariosto não esperou. Foi ali mesmo. Debaixo do chuveiro. Ariosto nem tirou as calças. Depois disse:
- Só tomei o que é meu.
- Precisa ser grosseiro?
- Agora vai ser assim. Quando você menos esperar.
- Ariosto!
- Quando você menos esperar!
Dois dias depois, quando ela chegou da rua (banco, pedicure, súper) no meio da tarde, ele estava esperando atrás da porta. Tinha chegado mais cedo do trabalho para pegá-la. Pacotes do súper pelo chão, ele tomou o que era seu em cima dos congelados. Na manhã seguinte, esperou ela se levantar da cama, escovar os dentes, se vestir - e só então atacou.
- Ariosto! Na mesa do café?!
Foi na mesa do café mesmo e não teve conversa.
- A Nelinha vai chegar a qualquer momento!
- Azar.
Outra vez foi no cinema. Ela devia ter desconfiado quando ele quis sentar atrás, ele que gostava de sentar na frente. Atrás não tinha ninguém.
- Ariosto, o que é isso?
- Chega um pouco pra cá... Assim... Agora a outra perna.
- Ariosto, vão nos ver!
- Não vão.
- Vão nos ouvir!
Mas era um filme do Schwarzenegger e ninguém ouviu.
Todas as terças-feiras ela almoçava com a turma. Amigas antigas, muitas ex-colegas da escola, um grupo de 15 ― quando apareciam todas. Ela e a Nelinha, que morava no mesmo prédio, iam juntas e não perdiam um almoço, sempre nas terças, sempre no mesmo restaurante. Naquela terça a conversa na mesa estava animada, como de costume, quando de repente a Nelinha avistou alguém que acabara de entrar no restaurante, abanou e disse:
- Olha quem chegou aí.
Ela se virou e viu que era o Ariosto. E as amigas estranharam muito sua reação. Ela não saudou o marido, como seria natural. Não perguntou, bem-humorada, o que ele estava fazendo ali, invadindo o seu grupo das terças. Levantou-se com uma expressão de pânico no rosto. Alguém que entrara pela porta e agora se aproximava da mesa era a causa do seu terror. Recuou, derrubando sua cadeira, achatou-se contra a parede e gritou:
- Ariosto, tu não é louco!
Mas o Ariosto só viera tratar de um assunto doméstico. Uma chave que precisava ficar com ela, alguma coisa assim. As amigas não entenderam nada.
Amor na internet
(Da série “Poesia numa hora dessas?”)
Meu nome não é Romeu e a foto que eu escaneei não sou eu mas tudo o mais é verdade! (Fora, está certo, a idade). Meu signo é mesmo Escorpião e é sincera minha paixão. E como é que eu sei que seu nome é Daisy May e a foto nua é mesmo sua? Só o que importa é nos amarmos e talvez nos encontrarmos.
Mas nesta incerteza eu não vivo. Download-me ou delete-me, não quero ser apenas mais uma pasta esquecida no seu arquivo.
Domingo, 16 de novembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.