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Américas

Cláudio Moreno

1 Américas? – Um advogado maranhense que lê a ZH pela internet e acompanha com deleite (desculpem a imodéstia, mas a palavra é dele) a charla quinzenal desta coluna vem declarar-se “um perene insatisfeito e agredido com a idolatria que nós, brasileiros, às vezes de forma inconsciente e ignorante, nutrimos pelo Inglês, em detrimento do nosso próprio idioma”. Desta vez (pois, ao que parece, o rosário é longo), o que despertou sua indignação foi o uso do plural Américas para designar o continente americano. Diz o nosso são-luisense (ou ludovicense, como se autodenominam alguns pedantes conterrâneos de Sarney) que há séculos vinhamos chamando nosso continente de América, até que entraram em cena os EUA: como lá “eles chamam de América o seu país, usam o plural quando se referem ao continente – e nós, à moda dos papagaios, copiamos e pronto”.

Pois não sei, prezado leitor, de onde saiu essa estranha ideia de que a tradição é usar América no singular – digo “estranha” porque este plural aparece em muitos textos bem tradicionais – nas Cartas Chilenas, na poesia de Casimiro de Abreu, em livros de Oliveira Lima, do Rui, de Euclides da Cunha, do velho Eça, entre outros. É verdade que este plural não chega a competir, estatisticamente, com a forma singular, mas vais encontrar uma quantidade de ocorrências suficientes para invalidar a tua tese. Além disso, não é justo atribuir aos Estados Unidos um fato linguístico já presente nos séculos 18 e 19, muito antes daquele país começar a exercer sua conturbada influência sobre nós ou sobre o mundo. Os países latino-americanos se referem, há séculos, às Américas – e também não foi por imitação dos EUA. Meu conselho? Usa América se assim preferires (como eu também, aliás), mas para de embirrar com aqueles que preferem o plural, porque eles também têm amparo na tradição.

2 Mamelucos – Não faz muito tempo, apresentei aos leitores a etimologia de mameluco, vocábulo que serve para designar, no Brasil, o filho de índio com europeu. Lídio P., de algum lugar da fronteira, escreve para acrescentar um interessante detalhe: mameluco é também o nome que se dá no Uruguai para o conjunto de ceroula e camiseta, numa peça única, usado principalmente pelos meninos. Esta espécie de macacão de flanela ou de pelúcia (chamado nos EUA, de union suit) não é fácil de desvestir, acarretando perigosos atrasos para um guri apurado para ir ao banheiro, como lembra, sem muita nostalgia, o leitor: “Essa peça de roupa, no inverno, me causou muitos transtornos na escola: até chegar aos botões, o estrago já estava feito”. Uma pesquisa nos dicionários do Prata me informou que até hoje, na Argentina, no Uruguai e um outros países da América Espanhola, o macacão de trabalho pode ser chamado de mameluco ou de ovenil (ou overol, na simpática forma criolla).

Com a certeza de que os leitores não ficariam satisfeitos se não soubessem por que cargas d’água essa peça de vestimenta viria a ser chamada de mameluco, saí no rastro e levantei boa caça: a designação veio do corte meio abombachado do traje, que evoca as calças bufantes envergadas pelos famosos guardas do sultão. Estes soldados ficaram célebres porque se converteram em temíveis mercenários, participando, inclusive, do exército de Napoleão em Austerlitz e das forças francesas que invadiram a Península Ibérica em 1808 (Goya os retratou no seu famoso quadro “A Carga dos Mamelucos”). Durante algum tempo tornou-se moda, na Europa, vestir meninos com “roupa de mameluco”, como nos conta Galdós, escritor espanhol, no seu livro sobre a corte de Carlos IV: ao visitar a família real, viu, no jardim, o infante don Francisco de Paula, menino de poucos anos, que corria de um lado para o outro acompanhado de damas de companhia – “e por certo tive de rir ao ver o infante saltando e brincando com sua roupa de mameluco, totalmente vermelha” – feliz e faceiro, diria eu, como todo coloradinho que conheço...

À guisa do encerramento, aproveito para lembrar aos amigos que nos primeiros dias de março iniciam, na Casa de Ideias, no Shopping Total, novas turmas do meu Curso de Português voltado para concursos de nível superior. Mais informações pelo fone 3018-7740 ou pelo endereço português@casadeideias.com.


Sábado, 18 de fevereiro de 2012.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.