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Alfabeto

Luis Fernando Verissimo

As letras. Sem elas, somadas, não poderíamos dizer nada. Com elas, podemos dizer quase tudo

Do baú:


A – Primeira letra do alfabeto. A segunda é “L”, a terceira é “F” e a quarta é “A” de novo.

AH – Interjeição. Usada para indicar espanto, admiração, medo. Curiosamente, também são as iniciais de Alfred Hitchcock.

AHN? – O que? Hein? Sério? Repete que eu sou halterofilista.

AI – Interjeição. Denota dor, apreensão ou êxtase, como em “Ai que bom, ai que bom”. Arcaico: Ato Institucional.

AI, AI – Expressão satírica, de troça. O mesmo que “Como nós estamos sensíveis hoje, hein, Juvenal?”

AI, AI, AI – Expressão de mau pressentimento, de que em boa coisa isto não pode dar, de olhem lá o que vocês vão fazer, gente.

AI, AI, AI, AI, AI – O mesmo que “Ai, ai, ai”, mas com mais dados sobre a gravidade da situação. Geralmente precede uma reprimenda ou uma fuga.


B – Primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartok, Brecht, Beckett e Bergman, mas também de Bigorrilho, o que destrói qualquer tese.

BB – Banco do Brasil, Brigitte Bardot, coisas desse tipo.

BELELÉU – Lugar de localização indefinida. Em alguns mapas fica além das Cucuias, em outros faz fronteira com Cafundó do Judas e Raio Que os Parta do Norte. Beleléu tem algumas características estranhas. Nenhum dos seus matos tem cachorro, todas as suas vacas estão no brejo – e todos os seus economistas são brasileiros.


C – Uma das letras mais populares. Sem ela não haveria carnaval, caipirinha, cafuné e crédito e a coisa seria bem mais complicada.

CÁ – Advérbio. Que dizer “aqui no Brasil”. Também é o nome da letra k, de Kafkiano, que também quer dizer “aqui no Brasil”.

CÊ – Diminutivo de “você”, como em “cê soube?” ou “cês me pagam”. Também se usa “cezinho”, mas em casos muito particulares, a sós e com a luz apagada.

CI – Ser mitológico. Na cultura indígena do Amazonas, a mãe de tudo, a que está por trás de todas as coisas, a responsável por tudo que acontece (ver CIA).

CO – “O outro”. Como em co-piloto (o outro piloto), coadjuvante (não o adjuvante principal, o outro) e coabitação (morar com a “outra”).

CÓ – O singular de “cós”, como em “cós das calças”, que até hoje ninguém descobriu o que são.


D – 500 em latim. Vale meio M, cinco Cs e dez Ls.

DDD – Discagem Direta a Distância, ou Dedo Dolorido De tanto tentar.

DE – Prefixo que significa o contrário, o avesso. Como em “decúbito”, ou com o cúbito para cima.


E – Conjunção. Importantíssima. Sem o E, muitas frases ficariam ininteligíveis, dificultando a comunicação entre as pessoas. Em compensação não existiriam as duplas caipiras.

E? – E daí? Continue! Qual é a conclusão? Qual é o sentido dessa história? Onde você quer chegar, pombas? Vamos, fale, desembuche.

É – Afirmativa, confirmação, concordância. Também é usado na forma reflexiva (“Pois é”), na forma interrogativa (“É?”), na forma reflexiva interrogativa (“Né”) e na forma interrogativa retórica-histórica reflexiva (“Ah, é?”).

É... – Com reticências, o mesmo que “Pois é”, mas como expressão de desanimo ou resignação filosófica, muito usado por torcedores do Internacional e em comentários sobre o ministério do Lula.


F – Antigamente, escrevia-se “ephe”.

FH – Em desuso.


GHIJKLMNOPQRSTUV – Letras que precedem o W, o X e o Z e sem as quais nenhum alfabeto estaria completo.


W – De “Wellington” ou “Washington”. Só é mantido no alfabeto brasileiro para ser usada por jogadores de futebol, que têm exclusividade.


X – No Brasil, “queijo”.


Z – O “S” depois de um choque elétrico.

ZÉ – A gente. Ver também “Mané”.

ZZZZ – Sssshhhh!


Domingo, 22 de dezembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.