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avôs
Acriano

Cláudio Moreno

Quem mexe em casa de abelha deixa o enxame assanhado, ensinavam os antigos. Não deu outra: na coluna anterior, falamos sobre a forma correta de grafar o nome de Santana do Livramento; foi o que bastou para que um leitor do Acre, atualmente em férias em Porto Alegre, pedisse minha opinião sobre a melhor maneira de escrever o gentílico correspondente àquele estado: acreano ou acriano? Ora, a experiência me ensinou que um dos assuntos mais delicados para quem escreve sobre questões de linguagem é, acreditem, a grafia dos nomes próprios, seja de pessoas, seja de lugares; qualquer discussão neste campo deve ser conduzida com muito tato, já que o nome, muitas vezes, é uma parte extremamente sensível do indivíduo ou da comunidade. Com nomes de gente - os antropônimos - é muito fácil evitar animosidades: embora exista uma forma correta de grafá-los, nosso sistema admite, muito sabiamente, o direito de cada um portar seu nome da maneira como recebeu no cartório ou no registro da igreja. Em outras palavras, o nome genérico deve seguir a norma ortográfica; o nome individual, no entanto, é livre para seguir a tradição da família, a fantasia dos pais ou os princípios da numerologia. Quando minha filha escreve para dar notícias e comenta que na sua sala de aula existem um Tomás e uma Teresa, vai usar a forma genérica - sem precisar perguntar se o garoto assina Thomaz Tomaz ou Thomás, e a garota, Thereza, Tereza ou Theresa. Desta forma, todos ficam em paz.

Os nomes geográficos, contudo, seguem necessariamente uma lógica diferente. Por sua própria natureza pública, não podem ter esse caráter subjetivo dos nomes pessoais e precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. Como vimos, o Acordo de 1943 alterou a grafia de centenas de nomes tradicionais: Triumpho passou a Triunfo, Trammandahy a Tramandaí, Manáos a Manaus, Iguassu a Iguaçu, e assim por diante. Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, que suprimiu o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Ê assim que funciona, e o registro de fundação do município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei. É claro que as gerações contemporâneas às mudanças sofrem um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação (é o que sinto, por exemplo, cada vez que tenho de escrever Troia em vez de Tróia) - mas isso passa, assim como nós também, que estamos apenas de passagem por este mundo risonho.

Nem todos, no entanto, aceitam pacificamente essas alterações; indignados, rebelam-se, escrevem a seus parlamentares, fazem abaixo-assinados e promovem jantares de protesto no salão paroquial. Um observador estrangeiro diria que insurgir-se contra uma regra ortográfica é coisa de maluco - mas nós, brasileiros, conhecendo muito bem a espantosa elasticidade das leis, sabemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser. Pois não existe um exemplo no Acordo de 1943? Como todos sabem, a partir daquela data o H foi eliminado do interior de todos os vocábulos de nosso Idioma, sendo mantido apenas nos dígrafos CH, LH e NH. Com essa determinação, nihilismo passou a niilismo, exhausto passou a exausto, rehaver a reaver. No entanto, num exemplo típico do nosso tradicional “carteiraço", o relator cedeu diante da pressão de seus conterrâneos e inseriu uma clausulazinha salvadora que estabelecia que os "topônimos de tradição secular” ficariam a salvo do novo regulamento; o exemplo que dá, casualmente, é o nome de seu estado: a Bahia.

Abria-se, desta forma, uma exceção que até hoje permite que certos municípios mantenham acesa a discussão sobre a grafia de seu nome, alegando enquadrar-se também nesse vaguíssimo critério de "tradição secular". Embora a ideia me pareça absurda, reconheço que, diante do precedente, eles têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas - como define expressamente o Acordo - os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

(continua)


Sábado, 11 de setembro de 2010.



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