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Acordando

Luis Fernando Verissimo

Todas as histórias começam dentro de nós. É por isso que tantos livros iniciam com alguém acordando, alguém nascendo de si mesmo. Às vezes a história começa antes, começa dentro do personagem, no seu sonho, no ventre da mente. Mas não há notícia de um sonho que tenha dado uma boa história. Alguns sonhos enganam. Enquanto estão acontecendo, você se maravilha com eles. Mal pode esperar para acordar e anotar o que está sonhando. Que história vai dar! Mas acorda e esquece o sonho, ou descobre que ele não era tão aproveitável assim, que não daria história nenhuma. Nem um romance, nem um conto, nem uma crônica.

Bem, talvez uma crônica.


Deve haver uma estatística sobre o número de histórias que começam com o personagem acordando. O exemplo clássico desta cena recorrente é o personagem de Kafka que acorda transformado num grande inseto. Mas não é um exemplo típico. Geralmente a intenção do autor é a de partir a sua história, botá-la para fora, usar o ato de acordar como simulacro de um parto limpo. Dizem que todas as histórias deveriam iniciar com Gênesis, ou com a primeira ameba que se reproduziu no caldo primevo da Terra. Todo personagem de ficção deveria ser apresentado não só com seu histórico familiar mas com o histórico da sua raça, além de extrato bancário, ficha dentária etc. Como isso é impraticável, e como também dizem que o feto reproduz no ventre toda a evolução da espécie humana, o autor capta o personagem no processo diário de nascer de novo, na nossa gênese de cada dia. Para encurtar a história.


A maioria dos personagens não nasce metamorfoseado como o do Kafka. Pior do que um inseto, nasce como ele mesmo. Às vezes desorientado. Onde estou? Como vim parar aqui? Quem é essa mulher (ou esse homem, ou essa barata gigante) deitada ao meu lado? Às vezes começa fazendo um auto-inventário (Antônio Maria acordando: “Onde está meu pé esquerdo? E a minha cabeça, que fim levou a minha cabeça?”) Ou uma recapitulação da sua vida ou da noite anterior que nos situa no seu drama, no seu caso ou em qualquer outra razão que teve o autor para achar que nos interessaríamos pela sua história e a seguiríamos, em vez de abandonar seu personagem ali na cama.


Depois de acordar e sair da cama, o personagem ruma para outra cena típica de começo de história, o encontro com o espelho. É onde ele reflete sobre a passagem do tempo, sobre o mistério do outro refletido, sobre seus remorsos, medos e anseios, sobre o seu destino – enfim, sobre a sua cara. É pelo seu comportamento na frente do espelho que conhecemos o personagem, ou não conhecemos mas nos intrigamos com ele, e decidimos que vamos ficar com ele até descobrir seu destino. Ou cansar da sua cara.


Ideia para uma história. Um homem acorda na sua cama. Sozinho. Estava tendo um sonho estranho. Atravessa uma grande praça bem no meio da qual havia uma locomotiva. Pensara: se eu conseguir saltar por cima desta locomotiva é que estou sonhando. Se não conseguir, estou acordado. Acorda. Estava sonhando. Em seguida esquece o sonho. Pensa no que fez na noite anterior. O de sempre. Televisão. Uma olhada no refrigerador antes de se deitar. Nada para comer, além de um iogurte com a data vencida. Leva um copo d’água para a mesa de cabeceira. Nunca toma água durante a noite, mas gosta de saber que o copo está ali, para qualquer emergência. Sai da cama e vai para o banheiro. Faz xixi. Olha-se no espelho. Pensa: sabe de uma coisa? Não quero ser personagem de história nenhuma. Já há histórias demais no mundo. Esta termina aqui. E volta para a cama.


Domingo, 13 de agosto de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.