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4333

Luis Fernando Verissimo

Compraram um papagaio, mas o papagaio não falava. Ou falava, mas só dizia um número. 4333. Tentaram ensinar o papagaio a dizer outra coisa. O papagaio nada. Nem bom-dia. Só o número. 4333, 4333, 4333...

Formaram-se várias correntes. Uma, a mais prática, queria devolver o papagaio. Do que servia um papagaio que não falava, que passava o tempo todo só repetindo um número?

4333, 4333, 4333...

Coisa mais sem graça.

O negócio era devolver o papagaio com defeito.

Uma segunda corrente, a metafísica, discordava. Tinha duas ramificações. A do Clotilde, cozinheira, que passou a jogar no bicho, e em todas as outras modalidades lotéricas existentes, com todas as variações possíveis em torno do palpite do papagaio, e a do Olindo, o cunhado meio místico. Clotilde tinha certeza que, assim que ela ganhasse uma fortuna, o papagaio trocaria o número, para ela ganhar outra. Aquele papagaio era uma mina de ouro caída do céu. Em vez de devolvê-lo, deveriam escondê-lo e trata-lo como um marajá.

Olindo, o cunhado meio místico, era um solteirão que morava com a irmã e o marido e gostava de ocultismo, cabala, essas coisas. Para Olindo, o número repetido pelo papagaio era uma mensagem, talvez um presságio. 4333 podia ser a data do fim do mundo. Perguntaram por que um papagaio, logo um papagaio, traria o anúncio do fim do mundo, ainda mais com tanta precisão, e o Olindo desconversou. As forças que regiam nosso destino eram misteriosas, e se manifestavam misteriosamente. A chave que decifraria o Universo poderia estar no rótulo de uma lata de leite condensado. A exata forma geométrica de Deus poderia estar naquela esquadrilha de gaivotas que passara sobre suas cabeças, há minutos. Tudo no mundo era mensagem ou presságio. E alguém se dera conta de que a soma dos algarismos do número 4333 era 13? E que de trás para diante o número era 3334? Quem lera Zaratustra sabia que o que aquilo significava.

Ninguém sabia. O que significava aquilo?

- É melhor que não saibam – disse Olindo, com um sorriso superior.

A terceira corrente, a romântica, era da Letícia, a filha que gostava de imaginar histórias. Letícia queria conhecer a vida para ser escritora.

4333, 4333, 4333...

Que história, que histórias não estariam por trás daquele número? O pai comprara o papagaio do seu Souza da mercearia. Letícia procurou o seu Souza. O papagaio não era dele, ele tinha vendido a pedido do filho da dona Nena, que morava ali perto, e criara o papagaio. Seu Souza não sabia o nome do filho da dona Nena, sabia que seu apelido era Barão. Letícia já estava pensando na história que escreveria. O Barão (por que “Barão”?) a levaria para conhecer dona Nena, que revelaria o segredo do número.

Talvez fosse um código! Na simples busca das origens de um papagaio, ela desvendaria um mundo cheio de personagens instigantes, vidas entrelaçadas, certamente vidas diferentes. Mas Letícia, levada pelo Barão, que era um mirrado sem qualquer potencial romântico, nem chegou a bater na porta da dona Nena. De dentro do apartamento vinha uma voz lamurienta cantando “Telefona ao menos uma vez para 34 4333...”, e o Barão explicou que a mãe, em 30 anos, só parara de cantar aquele trecho do samba do Noel Rosa quando dormia. Letícia desistiu ali mesmo da sua incursão literária. Num instante tivera a visão de uma vida diferente demais para ser digerida, na sua idade. “Ainda não estou preparada para a condição humana”, pensou para si mesma, mais tarde, na frente do espelho.

O voto da Letícia foi decisivo. Soltaram o papagaio chato no meio do mato.


Domingo, 20 de novembro de 2005.



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